Bombacha, lenço no pescoço, uma cuia de chimarrão nas mãos e o churrasco no fogo. Em setembro, esses símbolos ganham ainda mais espaço com as comemorações da Semana Farroupilha. Mas é preciso ter nascido no Rio Grande do Sul para fazer parte dessa cultura?
A resposta se torna menos simples quando se volta alguns séculos na história. Antes de "gaúcho" se tornar o gentílico de quem nasce no Rio Grande do Sul, a palavra esteve associada a um tipo social que circulava pelas planícies de uma região que hoje abrange territórios brasileiros, uruguaios e argentinos. Ao longo do século XIX, o termo passou por uma transformação e ganhou o significado positivo relacionado à coragem, liberdade e identidade regional que permanece atualmente.
E a própria formação dessa identidade é resultado de encontros entre diferentes povos.

Antes do gaúcho, estavam os indígenas
Muito antes de portugueses e espanhóis disputarem o extremo Sul da América, diferentes povos indígenas já ocupavam o território.
Guaranis, Kaingang, Charruas e Minuanos estavam entre os grupos que habitavam áreas que atualmente integram o Rio Grande do Sul. Eles possuíam diferentes línguas e formas de organização, além de redes de comércio, alianças e circulação pelo território.
Uma herança indígena permanece diariamente nas mãos de milhares de pessoas: a erva-mate. O consumo da planta já fazia parte da cultura Guarani antes da chegada dos europeus e se transformou, séculos depois, em um dos principais símbolos da cultura gaúcha e também dos países da região do Prata.
No século XVII, a presença dos jesuítas espanhóis e as reduções missioneiras criaram um novo capítulo dessa história. O gado bovino e equino introduzido na região se multiplicou pelos campos e, posteriormente, tornou-se uma das bases da economia local.
A abundância de animais nos campos ajudou a desenvolver atividades de captura, criação e transporte de gado. Com o tempo, cavalo, laço e vida campeira se tornariam elementos associados à figura histórica do gaúcho.

Entre Portugal e Espanha
Outro ingrediente fundamental dessa formação está na própria geografia.
O atual território gaúcho foi durante séculos uma zona de disputa entre as coroas de Portugal e Espanha. As fronteiras ainda estavam em construção e a circulação de pessoas não obedecia aos limites nacionais conhecidos atualmente.
A ocupação portuguesa avançou no século XVIII e recebeu importante participação de famílias vindas dos Açores, instaladas pelo governo português para fortalecer a presença civil em uma área disputada. Esses grupos deixaram marcas na culinária, nas festas, na arquitetura e em outros aspectos da cultura regional.
Ao mesmo tempo, tropeiros, militares, estancieiros e populações mestiças circulavam por um espaço de fronteira. A cultura que surgia nesse ambiente não pertencia exclusivamente a um único povo.
O próprio gaúcho do Pampa é descrito historicamente como resultado desses encontros: indígenas, ibéricos, mestiços, libertos, peões sem terra e outras populações compartilhavam práticas como a montaria, a erva-mate e o uso de vestimentas adaptadas à vida nos campos.
A presença negra também faz parte dessa história
Outra contribuição importante, mas muitas vezes menos lembrada quando se fala na identidade gaúcha, veio da população negra.
O trabalho de pessoas africanas escravizadas esteve profundamente ligado à economia do Rio Grande do Sul, principalmente às charqueadas, além das estâncias, atividades urbanas e outros setores.
A participação negra, porém, não ficou restrita ao trabalho. Religiosidade, musicalidade, culinária, vocabulário e diferentes formas de sociabilidade também passaram a integrar a formação cultural do estado.
Durante a própria Revolução Farroupilha, homens negros escravizados participaram das tropas rebeldes com promessas de liberdade. A história dos Lanceiros Negros e o episódio de Porongos permanecem entre os capítulos mais discutidos do conflito.
Alemães, italianos e novas camadas culturais
A diversidade aumentaria ainda mais no século XIX.
A partir de 1824, imigrantes alemães começaram a se estabelecer no Rio Grande do Sul. Em 1875, teve início a chegada de grandes grupos de italianos. Outras populações europeias também formaram comunidades e acrescentaram idiomas, receitas, festas, práticas religiosas e formas de organização ao mosaico regional.
Ao mesmo tempo em que preservavam costumes trazidos da Europa, esses grupos passaram a conviver com práticas que já existiam no território.
A cartilha História, tradição e memória da cultura gaúcha em São Lourenço do Oeste, produzida a partir de pesquisa sobre a presença dessa cultura no Oeste catarinense, registra justamente esse processo. Um dos relatos reunidos na publicação aponta que descendentes de italianos e alemães assimilaram costumes da região da Campanha, como chimarrão, churrasco e cantigas, e posteriormente ajudaram a levá-los para outros territórios.
Assim, aquilo que atualmente é reconhecido como "cultura gaúcha" não pode ser explicado por uma única ascendência.
Uma cultura que não parou na divisa
A história também ajuda a explicar por que é tão comum encontrar CTGs, rodeios, pilchas e rodas de chimarrão fora do Rio Grande do Sul.
Com os movimentos migratórios internos, famílias gaúchas avançaram para outras regiões em busca de terras e oportunidades. Paraná e Santa Catarina estiveram entre os principais destinos, e os costumes viajaram junto com essas pessoas.
A criação de Centros de Tradições Gaúchas e a realização de rodeios ajudaram a preservar e transmitir práticas entre as gerações.
É uma história que ajuda a compreender a presença da tradição também no Oeste do Paraná, onde famílias que nasceram deste lado da divisa mantêm hábitos associados à cultura gaúcha.
O Pampa, aliás, reforça a dimensão transfronteiriça dessa identidade. O bioma não está restrito ao Rio Grande do Sul: também alcança Uruguai e Argentina.
Churrasco, mate, atividades com gado, indumentárias e outras características também possuem correspondentes nos países vizinhos. Historicamente, o Sul brasileiro manteve intensa relação econômica e cultural com a região do Prata.

De figura marginal a símbolo de um estado
Até o significado da palavra "gaúcho" mudou.
Nos séculos XVIII e XIX, o termo podia ser utilizado de maneira depreciativa para identificar homens livres que circulavam pelos campos, muitas vezes pobres e sem propriedade ou emprego fixo. Com o passar do tempo, essa figura foi ressignificada. Especialmente depois da Revolução Farroupilha, passou a ser associada a características como bravura, liberdade e ligação com a terra.
No século XX, esse processo ganhou organização.
Em 1948, a fundação do 35 CTG, em Porto Alegre, marcou a institucionalização de um movimento voltado à sistematização e preservação de práticas, indumentárias e símbolos da tradição. A historiografia também interpreta esse tradicionalismo como uma resposta às transformações provocadas pela urbanização e pela modernização da sociedade.
Chimarrão, churrasco, música, dança, poesia, atividades campeiras e a própria indumentária passaram a ser preservados e transmitidos de maneira organizada pelos CTGs.
Afinal, quem pode ser gaúcho?
Pelo critério geográfico, gaúcho é o gentílico de quem nasce no Rio Grande do Sul.
Culturalmente, porém, a história permite uma discussão mais ampla.
Estudos sobre a cultura gaúcha registram justamente essa compreensão do tradicionalismo. O material estende a identificação cultural a descendentes e pessoas que cultivam suas tradições e apresenta o depoimento de um tradicionalista que resume: "não há necessidade de ter nascido no Rio Grande do Sul pra ser gaúcho".
É uma interpretação de pertencimento, e não uma mudança de naturalidade.
Talvez seja justamente por isso que a Semana Farroupilha encontra espaço muito além das fronteiras rio-grandenses. A cultura celebrada em setembro atravessou países e estados e foi transformada por cada povo que encontrou pelo caminho.
Antes de ser uma história de uma única origem, a formação do gaúcho é uma história de encontros.

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