Se antes o Brasil exportava jogadores e técnicos para o exterior, agora o mercado do futebol também está aquecido para os árbitros. Igor Junio Benevenuto, que desde 2021 usa o escudo da Fifa sendo um dos árbitros de vídeo mais conceituados do país, recebeu uma proposta para trabalhar nos Emirados Árabes Unidos.
O contrato oferecido até o fim de março de 2025 é vantajoso, já que tem a garantia de um salário [em dólar] ao fim do mês independentemente do número de jogos que apitar. Por lá, uma rotina mais tranquila, pressão muito menor e a possibilidade de treinar diariamente.
– A diferença é muito grande, uns 60% a mais do que eu ganharia no estadual em Minas Gerais. No Brasil, por exemplo, quando você é um árbitro Fifa ganha um pouco mais, tem uma remuneração um pouco melhor, mas tem o problema de ser por jogo. Se eu trabalhar, beleza. Se eu não trabalhar, não ganho, posso ter algum problema físico, algum problema particular. Posso ter algum problema em um jogo que eu vou ter que passar por um treinamento, um período fora fazendo aprimoramento, então isso tudo interfere. Aqui [Emirados Árabes] vou ganhar em dólar.
– Se eu fizer uns dez jogos por mês no Brasil ou mais, fica praticamente equivalente ao valor que eu receberia aqui. Mas aqui ainda é um pouco mais, eu ganho um salário mensal. Se eu fizer um jogo, vou ganhar aquele salário. Se eu for apitar dez jogos, é aquele mesmo valor. A proposta surgiu agora, final do ano, em dezembro a gente não tem jogo. Então, praticamente fica cinco meses ganhando uma taxa muito menor porque são estaduais – explicou o árbitro.
Igor Junio Benevenuto - primeiro árbitro Fifa a se declarar gay (ouça no podcast abaixo) - revelou que ficou surpreso com a estrutura encontrada em Dubai. Segundo ele, os árbitros possuem um centro de treinamento e o acompanhamento de profissionais para aprimorarem as questões físicas e técnicas. Além disso, têm moradia e carro à disposição para facilitar os deslocamentos para os jogos.
– Gostei muito da estrutura de Dubai, muito bem organizado e grande. Eles possuem três campos de treinamento, estrutura para treinamento de árbitro de vídeo, vestiários, ginásio e tudo muito bem feito. Os árbitros estão sempre treinando, aprimorando. Aqui é um país pequeno, então eles conseguem concentrar os árbitros em um único local para treinar. O Brasil, por exemplo, é um país continental e isso dificulta a questão dos treinamentos. A Federação local aqui tem uma estrutura impactante, seria muito bom termos isso em cada federação local no Brasil para os árbitros poderem ter um instrutor perto e a CBF dar esse treinamento.
– Acho que o profissionalismo nesses países onde o árbitro tem um salário fixo, moradia, um carro à disposição, é muito importante porque dá uma tranquilidade muito grande de trabalho. Eu sei que ao final do mês, independentemente da quantidade de jogos, terei o meu salário. Você entrar dentro de campo sabendo que você teria que ir muito bem porque se não vai ficar sem receber, sem poder trabalhar... Às vezes o árbitro tem uma lesão, uma reciclagem e não ter essa garantia financeira para pagar as dívidas é muito ruim. Isso causa uma pressão interna, mental e muito maior que a torcida – disse Igor.
Para apitar nos Emirados Árabes, Igor precisou pedir uma espécie de licença para a Federação Mineira de Futebol e a CBF. O árbitro garante que a liberação foi tranquila e considerada uma vitória por quem comanda a arbitragem nacional, mostrando o valor do profissional brasileiro no exterior.
– Inicialmente foi uma liberação muito tranquila, porque até conversei com um rapaz aqui que fez toda a parte de interlocução. Procurei o Seneme, foi uma conversa produtiva, se era o que eu queria e ficaria muito feliz porque mostraria a qualidade do nosso trabalho, assim como procurei o comando da arbitragem brasileira. E me disseram que tanto a CBF quanto a Federação Mineira estariam de portas abertas. A conversa foi bem sadia.
– A escolha dos brasileiros mostra a qualidade dos nossos árbitros. O Campeonato Brasileiro é um dos mais longos e difíceis de serem apitados no mundo. Percebo que as pessoas desvalorizam e sempre focam no lado negativo dos árbitros brasileiros e somos bem-vistos no mundo inteiro pela capacidade técnica, física, questão interpretativa do jogo e o pessoal só critica. Claro que precisamos evoluir, crescer e percebo que no Brasil isso é muito mais intenso – analisou Igor.
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