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Sexta-feira, 29 de Maio de 2026
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Pedro Ortaça, último ícone dos Troncos Missioneiros, morre aos 83 anos de idade

o longo de sua trajetória, Ortaça construiu um cancioneiro autoral com mais de 120 músicas

Pedro Ortaça, último ícone dos Troncos Missioneiros, morre aos 83 anos de idade
Reprodução/Instagram
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A madrugada desta sexta-feira (29) silenciou uma das vozes mais profundas do Rio Grande do Sul. Pedro Ortaça, cantor, compositor e violonista, morreu aos 83 anos no hospital de Ijuí, na Região Noroeste do estado, onde estava internado desde uma cirurgia realizada na quinta-feira (28). Transferido para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), ele sofreu três paradas cardiorrespiratórias consecutivas e não resistiu. Com sua partida, extingue-se oficialmente o título de "Tronco Missioneiro" - honraria que dividiu com três amigos e que ele carregou como uma bandeira até o fim.

Natural da localidade de Pontão de Santa Maria, em São Luiz Gonzaga - berço dos Sete Povos das Missões -, Ortaça nasceu em 29 de junho de 1942. Criado num ambiente onde a música era respirável, aprendeu cedo o valor da tradição: seu avô Quintino Martins dos Santos tocava gaita de oito baixos, e seus pais frequentavam animadas reuniões como a famosa Bailanta do Tibúrcio, que mais tarde inspiraria um de seus maiores sucessos. Essa atmosfera rural e festiva moldou o menino que, décadas depois, se tornaria um dos maiores baluartes da cultura gaúcha.

A missão de cantar as Missões

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Ao longo de sua trajetória, Ortaça construiu um cancioneiro autoral com mais de 120 músicas - entre elas clássicos como "Timbre de Galo" e a própria "Bailanta do Tibúrcio". Sua obra, porém, ia muito além do entretenimento. Ao lado de Jayme Caetano Braun, Noel Guarany e Cenair Maicá, ele integrou o quarteto que, nos anos 1980, revolucionou a música regional ao introduzir uma vertente crítica e histórica. Enquanto o cancioneiro tradicional gaúcho muitas vezes romantizava a vida no campo, os Troncos Missioneiros denunciavam injustiças, resgatavam a memória indígena e missioneira e devolviam à música sua função de consciência.

"Na nossa infância, só se ouvia nas rádios das Missões as músicas de São Paulo e do Rio de Janeiro - sertanejo caipira ou Luiz Gonzaga no Nordeste. Aqui não tínhamos uma cantiga que defendesse o direito do cidadão e que contasse a história do Rio Grande", explicou Ortaça em entrevista concedida em abril de 2024. Foi para preencher esse vazio que o grupo passou a "cantar denunciando, cantar flores, a mulher, o cavalo, a história das Missões".

O disco "Troncos Missioneiros", lançado em 1988, tornou-se um marco. Produzido por Alex Honenberger, o álbum em vinil consolidou em estúdio o que já ecoava nas pegadas dos quatro artistas: a certeza de que o Rio Grande nasceu nas Missões - com suas ruínas dos Sete Povos (que originalmente eram trinta) - e de que ignorar esse passado seria condenar o futuro. Como Ortaça costumava dizer, inspirado na sabedoria guarani: "para fazer uma projeção para o futuro com amor na presença, tem que ter passado".

Patrono da Semana Farroupilha e reconhecimento tardio

Em fevereiro de 2024, a comissão estadual dos Festejos Farroupilhas anunciou Pedro Ortaça como patrono das comemorações daquele ano - uma escolha que, para muitos, representou o reconhecimento que a academia e o mercado por vezes negaram aos missioneiros. O tema da Semana Farroupilha de 2024 foi o centenário de nascimento de Jayme Caetano Braun, seu parceiro de longa data. "O Jayme ficaria contente com o convite, porque ele sabia muito, exaltava o Rio Grande e também criticava quem não sabia das coisas e queria opinar", recordou Ortaça à época, emocionado.

A homenagem somou-se a outras já recebidas: personalidade do século em São Luiz Gonzaga, Prêmio Vitor Mateus Teixeira da Assembleia Legislativa do RS, Mestre das Culturas Populares Brasileiras pelo Prêmio Humberto Maracanã (Ministério da Cultura) e, em 2025, o título de doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Seu reconhecimento, no entanto, nunca foi individual. Em todas as entrevistas, Ortaça fazia questão de nomear os companheiros de jornada: Noel Guarani (1941-1998), Cenair Maicá (1947-1989) e Jayme Caetano Braun (1924-1999).

Uma família de herdeiros missioneiros

A cultura missioneira não se perdeu com o patriarca. Seus três filhos - Gabriel, Alberto e Marianita - herdaram a veia artística e o compromisso com a terra. Gabriel Ortaça, inclusive, foi parceiro musical do pai na última canção lançada em vida por Pedro: "Pena Guarany". A esposa Rose, frequentemente celebrada na canção "Companheira" (letra de Carlinhos Cardinal, música de Ortaça), foi descrita por ele como "a companheira que sonhei desde guri", figura central na divulgação do legado missioneiro.

Ao longo de sua carreira, Ortaça levou a música gaúcha não apenas pelo Brasil, mas também à Argentina, Paraguai e Uruguai, sempre recebido com carinho por aqueles que reconhecem nas Missões uma história comum de luta e resistência. "O que dá mais orgulho é exatamente esse amor pelas nossas raízes", afirmou em 2024. "Eu me sinto muito feliz onde cheguei, onde passei e onde ando."

Últimos dias e despedida

O velório de Pedro Ortaça ocorrerá em Ijuí - cidade onde ele passou seus últimos dias. Até o fechamento desta reportagem, a família ainda não havia divulgado horário e local da cerimônia, que deve reunir admiradores, músicos e autoridades do meio tradicionalista.

Sua partida, aos 83 anos, deixa um vazio imenso na música regional, mas também uma obra sólida que já é, ela mesma, uma ruína viva - como as missões jesuíticas: destruída pelo tempo, mas incapaz de ser apagada da memória coletiva. Nas palavras do próprio Ortaça, ditas em uma de suas últimas entrevistas:

"Venho de longe no tempo, muito embora os tempos novos. Sou cria dos Sete Povos, sou índio, branco e mestiço."

E assim, o último Tronco Missioneiro se recolhe à história - não para emudecer, mas para ecoar para sempre nas cordas de um violão e na coragem de cantar a verdade.

FONTE/CRÉDITOS: Catve
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