O desaparecimento de uma ponte ferroviária centenária em Prados, a 181 km de Belo Horizonte, mobilizou moradores, ciclistas, autoridades e agora também a Polícia Civil. A estrutura metálica, construída na Inglaterra no fim do século 19 e integrante da antiga Ferrovia Oeste de Minas, foi desmontada, retirada da zona rural do município e encontrada cerca de 180 km distante, em um empreendimento turístico próximo ao Parque Estadual do Ibitipoca, em Lima Duarte, na Zona da Mata.
Imagens obtidas durante a investigação mostram partes da ponte sendo transportadas em carretas pelas estradas mineiras. A estrutura possuía aproximadamente 20m de comprimento por 5mde largura e fazia parte da paisagem da região há mais de um século.
O caso ganhou repercussão após moradores perceberem que a ponte havia desaparecido do local onde ficava, entre a comunidade da Estação de Prados e a Envernada. No terreno, restaram apenas as bases de sustentação.
Como a ponte saiu de Prados?
As investigações apontam que a estrutura foi desmontada e transportada com auxílio de maquinário pesado. Segundo a Polícia Civil, há indícios de que equipamentos foram utilizados para cortar a ponte em diversas partes antes do carregamento.
O delegado Rafael de Faria Emídio afirmou que as apurações indicam que um intermediador ligado ao mercado de antiguidades participou da negociação e contratou o transporte da estrutura.
O proprietário do terreno onde a ponte estava instalada já foi ouvido pela polícia. Segundo a investigação, ele alegou acreditar que a estrutura lhe pertencia por estar localizada dentro de sua propriedade rural. A partir dessa interpretação, teria negociado a venda da ponte com a ajuda de um intermediário.
A Polícia Civil apurou que a negociação teria sido fechada por aproximadamente R$700 mil.
Por que a ponte é considerada importante?
Mais do que uma antiga travessia ferroviária, a estrutura é vista como um patrimônio histórico ligado ao desenvolvimento econômico de Minas Gerais. Segundo o secretário municipal de Cultura e Turismo de Prados, Thiago de Castro Narciso, a ponte chegou ao Brasil vinda da Inglaterra durante a expansão da Ferrovia Oeste de Minas.
“Ela foi uma importante rota da malha ferroviária, principalmente para o desenvolvimento aqui do Oeste de Minas”, explicou.
Embora estivesse desativada desde 1980, a ponte continuava sendo utilizada por ciclistas e frequentadores da rota turística rural. O local fazia parte de trajetos de cicloturismo e era considerado um ponto de interesse histórico da região.
A retirada da estrutura causou indignação especialmente entre grupos de ciclistas que vinham promovendo ações de preservação e valorização do antigo trecho ferroviário.
Cidade histórica
Localizada a cerca de 190 quilômetros de Belo Horizonte, Prados é uma das cidades históricas mais tradicionais do Campo das Vertentes. O município integra o circuito da Estrada Real, é conhecido pela produção artesanal e pela forte tradição musical.
Para a prefeitura, a retirada da ponte representa uma perda não apenas patrimonial, mas também turística. Segundo o município, a estrutura pertence à União e está em processo de transferência para a administração municipal. Por isso, não poderia ser comercializada como um bem privado.
O secretário de Turismo acredita que justamente o valor histórico pode ter despertado o interesse dos compradores. “Pela capacidade econômica que possui, ele poderia ter adquirido uma ponte mais moderna. Isso demonstra que havia interesse no significado histórico do bem”, afirmou.
Onde a ponte foi encontrada?
Após as primeiras diligências, a estrutura foi localizada em uma área pertencente a um empreendimento turístico próximo ao Parque Estadual do Ibitipoca, em Lima Duarte.
Em nota, a empresa responsável pelo projeto informou que adquiriu a ponte de forma regular junto a um comerciante do ramo de antiguidades, com emissão de nota fiscal e autorização para transporte.
A empresa também afirmou ter colaborado com as autoridades assim que o caso ganhou repercussão.
A ponte vai voltar para Prados?
Ainda não há uma definição sobre quando e de que forma a estrutura retornará ao município.
A Prefeitura de Prados aguarda o avanço das investigações antes de discutir oficialmente o destino da ponte. Apesar disso, o município já estuda projetos para o local, incluindo a criação de uma área de descanso para visitantes e ciclistas e iniciativas voltadas à preservação do patrimônio histórico.
O que a polícia investiga?
A Polícia Civil trabalha inicialmente com a hipótese de furto qualificado mediante concurso de pessoas, mas outras possibilidades seguem sendo analisadas. Segundo o delegado Rafael de Faria Emídio, ainda é cedo para determinar se os compradores tinham conhecimento da situação jurídica da estrutura.
“Inicialmente nós trabalhamos com a ideia do furto qualificado pelo concurso de agentes. A gente está em uma fase muito inicial para saber realmente se houve dolo ou culpa da pessoa que recebeu a ponte”, afirmou.
Todos os envolvidos já foram ouvidos e a investigação continua. A Polícia Federal também deverá acompanhar o caso, já que o bem é considerado patrimônio da União.
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